Por Mino Carta
Como ele, tantos outros
Estou bastante preocupado com o destino do nosso Neymar. A disputa da Eurocopa está a provocar os nossos numerosos jornalistas esportivos, a enfeitarem os vídeos de forma marcante. Verificam eles aquilo que salta aos olhos, a incrível distância entre o futebol europeu e o nosso. Não sei o que vai resultar deste gênero de observação para o nosso craque-mor, que todos considerávamos até ontem um dos melhores do mundo, a partir de Cristiano Ronaldo e Messi.
O confronto entre o futebol de lá e o de cá mostra que iguais a Neymar há muitos, a provar que o próprio é um avante corriqueiro como tantos a singrarem os gramados da Eurocopa. A evidência não escapa aos nossos doutores em bolípodo, donde não posso sorrir numa situação tão difícil para o nosso herói. Gostaria de conhecer o pensamento do técnico Tite a respeito. Não aludo a um cataclismo, mesmo assim Neymar é uma referência importante, até hoje destinada a nos manter alertas e, por que não, encher de alegria.
Este não sabe ler
Não é tudo a determinar os altos e baixos do nosso humor. Por exemplo, um certo professor Leonardo Avritzer, da UFMG, no seu blog “A Cara da Democracia”, publicado pelo UOL em 24 de abril passado, escreveu que Bolsonaro é um “legado de Raymundo Faoro”. Na minha visão, é questão importante, porque importante é o nosso Faoro, autor de um livro decisivo para a compreensão do País e da sua história, intitulado Os Donos do Poder.
Faoro, fraternal amigo insubstituível, faleceu faz 18 anos, depois de ter orientado o meu pensamento em intermináveis ocasiões. A história de um país que até hoje não conseguiu praticar uma democracia autêntica pode ser lida conectando a obra de Faoro àquela de Gilberto Freyre, sem descurar da leitura de alguns autores fundamentais, como Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Celso Furtado.
Não me surpreende o fato de que outro acadêmico, Jessé Souza exerça uma forte influência sobre Avritzer, na qualidade de crítico contumaz do mesmo Faoro. Avritzer leciona impavidamente em Minas Gerais, Jessé a 10 mil quilômetros de distância, em Paris, na vetusta Sorbonne. Intelectuais brasileiros sempre tiveram infindável admiração pela cultura francesa e muitos deles realizaram o sonho de viver na Cidade Luz. Morar em Paris corresponde a uma espécie de galardão para inúmeros, sem excluir Fernando Henrique Cardoso e seu apartamento na Avenue Foch.
Quem nesta disputa chegou mais longe foi o ex-ministro do STF Eros Grau, o qual não se contentou com uma residência parisiense, mas quis ainda outra aprazível vivenda na região de Arles. O professor Dalmo Dallari também buscou a sabedoria que exala das margens do Sena. Talvez dali tenha surgido a cabulosa versão a respeito de um terrorista hoje preso em segurança máxima, o italiano Cesare Battisti, apresentado como herói da resistência democrática neste nosso país equivocado. •

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