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terça-feira, 4 de setembro de 2018

“Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir perdão”


Esta foi a principal mensagem do Papa Francisco na oração do Ângelus deste domingo (17/3), a primeira de seu pontificado. Uma grande multidão veio até a Praça de São Pedro, ao meio-dia (8 horas pelo horário de Brasília), para rezar e ouvir o novo Pontífice na janela do apartamento papel.
O Papa falou da misericórdia de Deus a partir do Evangelho da liturgia deste domingo (Jo, 8), que apresenta o episódio evangélico do perdão concedido por Jesus à mulher adúltera, por ele salva da morte por apedrejamento ao dizer as palavras “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra!”. Segundo o Papa Francisco, “Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir perdão”, disse ele. “Temos de aprender a ser misericordiosos com todos”, afirmou, antes de começar a oração do Ângelus.
“Vocês já pensaram na paciência de Deus? É sua misericórdia. Ele não se cansa de nos perdoar, se soubermos voltar para ele com o coração arrependido. É grande a misericórdia de Deus”, disse, vestindo a batina branca e uma cruz de ferro no pescoço, como tem se apresentado desde que foi eleito.
Ao final da oração, ele ainda completou: “A misericórdia torna o mundo menos frio”. No fim da mensagem sobre a misericórdia, ele rezou o Ângelus, pediu que os fiéis rezem por ele e desejou: “Bom almoço!”. A multidão da praça São Pedro, então, aplaudiu e gritou: Viva o papa!
Francisco, que é argentino, lembrou que as origens de sua família estão na Itália. “Mas nós fazemos parte de uma família maior, a família da Igreja”, disse o Papa.
Antes do Angelus, Papa celebra Missa
Mais cedo, o papa celebrou uma missa dominical na paróquia de Santa Ana, no Vaticano (9h locais,5h de Brasília). Antes de entrar na pequena igreja, o Pontífice parou para cumprimentar a multidão que o aguardava do lado de fora. Apertou mãos, fez carinho nas crianças e trocou palavras com muitas pessoas.
Chegando perto da Porta Angélica, o Papa reconheceu dois sacerdotes argentinos que estavam em meio aos fiéis e os chamou para a Missa. Francisco foi recebido pelo vigário para a Cidade do Vaticano, Cardeal Angelo Comastri.
Sua homilia foi breve sobre o Evangelho deste domingo. “Digo humildemente, para mim, a mensagem mais forte do Senhor é a misericórdia. Acredito que às vezes, nós somos como este povo, que, por um lado, quer ouvir Jesus, mas, por outro, gosta de criticar ou condenar os outros”.
O Papa disse que não é fácil entregar-se à misericórdia de Deus, porque é um abismo incompreensível; mas devemos fazê-lo! E garantiu que Jesus perdoa os pecados, tem a capacidade “de esquecer”, gosta se lhe contamos nossas coisas; beija, abraça e diz “Não te condeno; vai e não peque mais”.
“Este é o único conselho que dá. E mesmo se voltarmos depois de um mês e lhe contarmos novos pecados, o Senhor não se cansará de perdoar: jamais. Somos nós que nos cansamos de Lhe pedir perdão. Pedimos a graça de não nos cansarmos de pedir perdão”, encerrou.
Antes de terminar a missa, o Papa Francisco interrompeu por alguns momentos a celebração para homenagear um jovem missionário. Foi ao microfone e disse que dentre os fiéis, alguns não eram membros da paróquia, mas que “hoje são como paroquianos”:  “Quero lhes apresentar um padre que trabalha com meninos de rua, com os abandonados. Fez muito por eles, como uma escola que restitui dignidade aos meninos e meninas da rua, que agora, amam Jesus. E pediu a Gonsalvo que fosse ao altar para cumprimentar todos. O padre trabalha no Uruguai, onde fundou a escola João Paulo II.
Ao encerrar a missa, o Papa saiu e apertou as mãos de todos, um por um, abraçando a falando com mais intimidade com alguns.

Suicídio entre adolescentes e jovens não para de crescer no Brasil e no mundo


Encontro convidou especialistas para debater este assunto preocupante


 por Marina Dias  17/07/2018 16:52





Fotos: Alexandre Rezende/Encontro
No final do século XVIII, quando o escritor alemão Goethe lançou Os Sofrimentos do Jovem Werther, em que o personagem principal se mata, a obra foi acusada de causar uma onda de suicídios entre leitores. O efeito contágio que a disseminação de uma notícia do tipo pode causar ficou, então, conhecido como "Efeito Werther". É por isso que casos de suicídio são pouco divulgados pela mídia. No entanto, em tempos de redes sociais, mesmo episódios que não saíram nos jornais ou foram manchete em portais de notícia chegam até nós. É assim, via grupos de pais no WhatsApp, por exemplo, que os belo-horizontinos têm ficado sabendo, cada vez mais, de casos de suicídio entre estudantes na cidade, tanto de colégios quanto de faculdades (nessas últimas, chama a atenção o número de episódios envolvendo alunos de medicina). Também em São Paulo, escolas de prestígio tiveram recentes ocorrências de morte por suicídio - estas, inclusive, noticiadas pela mídia.

Por tudo isso, mais casos têm vindo à tona. O aumento nos números de suicídios, no entanto, não é só impressão. As estatísticas revelam que a ocorrência desses episódios entre adolescentes e jovens cresce de maneira preocupante não só no Brasil, mas no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já coloca o suicídio como segunda principal causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos. No Brasil, de 2000 a 2015, os casos aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% na faixa de 15 a 19 anos - mais do que o aumento na média da população, que foi de 40%. Segundo a mais recente edição do Mapa da Violência (documento realizado com base em dados do Ministério da Saúde), de 2002 para cá, a taxa de suicídio de jovens tem sido consistentemente maior do que a do restante da população, tendo crescido de forma contínua no período pesquisado.

O fenômeno tem gerado atitudes por parte do poder público, como campanhas de prevenção e a recente iniciativa de tornar a ligação para o número de telefone do Centro de Valorização à Vida (188) gratuita em todo o território nacional. Também motivou escolas a abordar o tema de diversas maneiras, como palestras de especialistas para os pais e rodas de conversa com alunos. Os pais, por sua vez, têm sido incentivados a conversar com os filhos e a ficar atentos a sinais de que algo não vai bem, como isolamento, irritabilidade, expressão de ideias ou intenções suicidas e, principalmente, mudança repentina no comportamento do jovem. Na avaliação de especialistas, esse movimento tem sido positivo na intenção de retirar o suicídio das sombras. A grande maioria concorda que falar sobre o tema - de maneira responsável e abalizada - é uma forma de prevenção.

Com o objetivo de contribuir para essa discussão, Encontro convidou cinco especialistas para uma mesa-redonda sobre o tema. "É preciso saber que o assunto é complexo e não há fórmulas prontas", diz a psicanalista e psicóloga especialista em saúde mental Cristiane Barreto, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. Ela foi uma das participantes da roda de conversa, juntamente com o psiquiatra Humberto Corrêa, professor da Faculdade de Medicina da UFMG, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia; José Belizário, psiquiatra e doutor em saúde e educação pela FioCruz; Patrícia Ragone, psicóloga, educadora parental e autora do livro Laços - Contribuições da Terapia Cognitiva para as Relações Familiares; e Rosângela Teles, pedagoga, mestre em educação e coordenadora do Núcleo de Apoio Psicopedagógico da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

Com perspectivas e experiências de atendimento diferentes, cada um dos especialistas trouxe uma visão e uma reflexão particular sobre a juventude atual, as dificuldades da sociedade contemporânea, a influência das redes sociais, o papel da escola e as mudanças da dinâmica familiar. E, ainda que tenham opiniões diversas em alguns pontos, todos concordam sobre a importância de os pais estarem, de fato, presentes na vida dos filhos e de buscarem ajuda, quando for o caso. "O suicídio é um comportamento complexo, que deixa muitas interrogações nos sobreviventes", diz Humberto Corrêa. "Sabemos, no entanto, que pode ser prevenido. Se perceber alguém precisando de ajuda, leve-o a um serviço de saúde. Todo aviso deve ser encarado seriamente."


Alexandre Rezende/Encontro
Mesa-redonda na redação de Encontro: redes sociais foram apontadas com uma das principais influências no aumento dos índices de suicídio entre jovens (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Aumento dos casos entre jovens

Humberto Corrêa: O porquê desse aumento de casos de suicídio entre jovens é complexo, como tudo que envolve suicídio. É multifatorial. Mas uma coisa que ajuda a entender esse movimento é o laço social. Nós sabemos que, quanto mais laços sociais tem uma comunidade e um indivíduo, menores são as taxas de suicídio. E vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, mais competitiva, em que adolescentes são treinados para serem executivos desde cedo. Além disso, as famílias são cada vez menores. Outro ponto que me chama a atenção é o uso de álcool e drogas, que ocorre cada vez mais cedo e em quantidade maior. Esse é outro fator de risco. Outro elemento importante: esta é uma geração pouquíssimo resiliente. Esses jovens não aprenderam a ter frustração e ouvir "não". Então, na menor intempérie, desabam, porque não aprenderam a lidar com os problemas da vida.

Rosângela Teles: Estamos vendo uma nova dinâmica familiar, em que esses jovens têm pouquíssimo contato com os pais e dificuldade de criar vínculos - porque os filhos estão sempre em escolas ou com babás. E, principalmente, eles tiveram uma infância muito curta. Sabemos que na primeira infância é quando se desenvolve essa estrutura,  não só cognitiva mas também psicoafetiva. Nesse sentido, eles têm pouca oportunidade, porque nas escolas só há investimento no desenvolvimento cognitivo. Temos então jovens altamente preparados, extremamente inteligentes, mas muito fragilizados emocionalmente. Tenho uma amiga, psicóloga, que fala da metáfora do psiquismo "casca de ovo", ou seja, que se quebra muito facilmente. E a alta competitividade que existe hoje em dia também. Nas faculdades de medicina, vê-se muito isso… Os alunos têm uma autocobrança, um perfeccionismo… E escutam desde pequenininhos em casa: "aqui só pode nota dez, viu?".

Patrícia Ragone: Os jovens estão despreparados para algumas coisas, como para a solução de pequenos problemas. Porque pensa nessa "saída" do suicídio quem não está conseguindo vislumbrar solução para os problemas. Então, quando você desdobra alternativas com esse jovem, ele sai daquela onda de pensamento adoecido, compulsivo, estreito. Mas os pais devem se questionar se eles mesmos são elementos vivos de esperança, compromissados com a vida. E se passam isso para seus filhos.

Sinais que merecem atenção

Humberto Corrêa: Nos adolescentes, deve-se estar atento principalmente a mudanças de comportamento. O jovem começa a ter um rendimento pior na escola, ficar mais isolado, trancado no quarto mexendo na internet ou irritado.

Rosângela Teles: No meu atendimento, uma das primeiras prescrições que faço é quanto ao sono. Quantas horas você está dormindo? Por que tão poucas? O sono é muito importante. E sem aparelhos eletrônicos no quarto. E os pais têm de ficar atentos. Se os meninos acordam morrendo de sono, se os professores reclamam que ele está cochilando em sala… Isso é um sinal.

Cristiane Barreto: Desses sinais todos que foram ditos, há um que me parece mais importante, que é o aspecto da introspecção, o isolamento, sinais de angústia. E quando você não consegue mais estabelecer com seu filho - ou seu amigo, ou sobrinho - uma conversa em que possa transmitir algo dos seus valores ou até como você fez para atravessar fases difíceis da vida. Isso é importante nesse tempo, e é na adolescência mesmo que construímos uma forma de lidar com nosso pior, que não é eliminável. Ou seja, quando você achar que o isolamento é para além do que devia, esse é um sinal para se fazer presente, oferecer ajuda, palavras.

Humberto Corrêa: Uma coisa que acho importante é dizer que a maioria dos suicidas avisou nos dias anteriores, nas semanas anteriores, para pessoas próximas, sobre aquela intenção.


Alexandre Rezende/Encontro
Humberto Corrêa | "Falar sobre suicídio não aumenta o risco, diminui. Mas tem-se que falar de forma adequada" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Redes sociais

José Belizário: Todo mundo que nasceu a partir de 1994 é da "iGeneration". Isso é no mundo todo, independentemente de cultura, classe social. São crianças que precocemente entram no mundo digital. Os mais jovens ficam uma média de nove horas por dia nas mídias digitais. Temos então alguns pontos importantes, sendo o primeiro a questão do sono. Os smartphones provocam uma alteração no nosso sono, devido à onda azul de luz que os aparelhos emitem e que inibe a produção de melatonina. Por isso, as pessoas que ficam no celular depois das oito da noite dormem mal e dormem menos. O dia seguinte delas também é pior; elas têm menos seratonina, uma substância muito importante para suportarmos o dia seguinte. Outro ponto importante é que os aplicativos atuais, que envolvem "likes", geram uma alteração no nosso sistema de recompensa. A pessoa passa a querer um retorno rápido e passa a depender da curtição no Instagram, no WhatsApp, para ter uma sensação de recompensa. Usando as mídias sociais o quanto têm usado, meninos e meninas não têm o sistema de recompensa estruturado para suportar as coisas da vida, e pequenas ocorrências os levam a um desespero muito grande.

Humberto Corrêa: Mas quem é que permite que a criança fique tantas horas no celular? Os pais.

José Belizário: Mas as famílias também estão dominadas pela questão da tecnologia… As crianças não querem mais brincar com os pais. Elas vão aos lugares, e lá precisa ter wi-fi. Elas não trocam o celular por brincadeira. Agora, se você tira o celular, se vai para um lugar sem internet, eles brincam, se divertem. Mas com a presença do celular, não. A mídia digital provoca vício.

Humberto Corrêa: Minha filha de 13 anos hoje não vai sozinha para a escola, sendo que moramos a quatro quarteirões dela, por questões de segurança. O que eu digo é: eu não deixo minha filha andar quatro quarteirões na cidade, mas vou permitir que ela navegue na internet sozinha, sem supervisão? Eu falo com ela que o celular dela é emprestado, pois é meu, na verdade. Ela vai usar na hora que eu permitir.

José Belizário: As famílias estão no mesmo barco. Quem deu o celular foi alguém da família, quem usa o celular na frente das crianças são os pais… A grande questão é que, quanto menos eles usarem, mais saudáveis eles vão ser. Quanto mais tarde tiverem acesso, melhor. Quanto mais regulado, melhor.

Humberto Corrêa: A tecnologia é uma grande vantagem, mas temos de saber usar. A questão é o limite. Pais não colocam limites, permitem que as crianças façam tudo. Acho que estamos vivendo uma geração que não tem limite por falta de quem os coloque. Vão crescendo dessa forma e, na primeira frustração que encontrarem, vão desabar.

Tecnologia

José Belizário: Então a solução que eu acho que é viável: insistirmos na importância do sono (pois nossos genes foram preparados para dormirmos cedo e levantarmos cedo) e da atividade física. Essas duas coisas juntas fazem com que nosso sistema de recompensa consiga fazer uma barreira a esses efeitos das mídias sociais. Pois o que vemos são meninos e meninas com sintomas impressionantes de vício e de abstinência quando tiramos o celular deles.

Cristiane Barreto: É claro que existe um excesso, um mundo intoxicado, em que prevalecem as relações de consumo. Mas costumamos demonizar rápido os objetos inventados no mundo contemporâneo. Às vezes os pais têm uma tendência de proibir, de tirar o celular ou o computador como uma primeira resposta, sendo que essa pode ser a única forma de ligação que alguns desses adolescentes têm com o mundo. E em alguns casos o que está em jogo nem é a relação excessiva com esse objeto, mas o tanto que as pessoas ao redor não se perguntam por que essa relação está tão excessiva, por que só há satisfação dessa maneira. A televisão já foi uma discussão em relação às crianças há tempos. A questão não era a criança e a televisão, era não ter nenhuma outra forma de satisfação, e o sujeito abandonado diante dessa solidão, inclusive frente à oferta gigantesca que o mundo fornece atualmente, sem nenhum ponto de orientação… É preciso saber que não há fórmulas prontas.

José Belizário: O que é importante é que essas redes são muito frágeis, não se sustentam enquanto laços. A mídia digital não faz laço, o WhatsApp não faz laço, não é olhar no olho. Claro que não podemos tirar isso do jovem que cresceu assim. Mas é importante limitar. Um famoso colégio de Belo Horizonte vai fazer nas olimpíadas um campeonato de iSports. Isso não é esporte. Não gera endorfina.

Humberto Corrêa: Obviamente, ninguém vai tirar a web da vida dos adolescentes. Faz parte da vida deles, da nossa. Mas acho que tem de haver um limite, porque é potencialmente aditivo. E volto na questão do laço social. Os amigos no Facebook, no WhatsApp, não substituem os amigos reais. Você pode ter mil contatos no WhatsApp, mil seguidores no Instagram, e nenhum amigo de verdade. Eles não são reais: não mostram a realidade. Só colocam as coisas boas, fotos felizes, viajando. Isso não é real.


Alexandre Rezende/Encontro
Patrícia Ragone | "Temos de nos questionar: eu guardo energia para chegar em casa e ter com meus filhos uma relação que me possibilite conhecê-los?" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Ciberbullying

José Belizário: Outro ponto importante é o bullying, que hoje é muito mais sério, pois acontece em rede, em redes muito mais amplas. Atendi um menino que sofria bullying e hoje mora nos Estados Unidos. Aqui em BH, não adiantava nem mudar de escola, porque no meio social dele o bullying foi se espalhando.

Patrícia Ragone: Antes da internet, das redes sociais, o bullying, quando acontecia, ficava restrito à escola. O jovem ia para casa e tinha uma trégua desse bullying. Hoje, não. Ao contrário, ele se perpetua.

Humberto Corrêa: Então a internet favorece o suicídio de que maneira? Com o ciberbullying, pois sabemos que o bullying aumenta o índice de suicídios (e curiosamente tanto em quem sofre quanto em quem faz). Há ainda sites que incentivam o suicídio. Mas a principal questão é a falta de limites que os nossos adolescentes têm, que não são colocados pelos pais, pela sociedade. Acho incabível deixar um adolescente oito horas por dia na internet.

Família

Patrícia Ragone: A dificuldade do limite, que já era grande, tornou-se ainda mais desafiadora com algo tão sedutor quanto um celular, que coloca o mundo dentro da sua casa.

Humberto Corrêa: A França está em vias de aprovar uma lei que proíbe jovens de até 15 anos de entrar na escola com celular. É um limite. A sociedade falou "Chega. Não pode".

Patrícia Ragone: O grande segredo é como criar esses limites. Como é importante nos reeducarmos. Fizemos lá em casa o que chamamos do "estacionamento do celular", para que tenhamos um tempo em família razoável qualificado. Porque, se nós mesmos não nos percebermos, caímos também no uso excessivo do celular.

José Belizário: Limite não é dado, é copiado. As crianças, até os 6 anos, copiam tudo. Copiam o que os pais fazem. Então tem de ser dado esse exemplo. Não adianta proibir e depois fazer.

Humberto Corrêa: Concordo em parte. Tem coisas que eu posso fazer e minha filha não, porque eu sou adulto e ela é criança.

Rosângela Teles: Um dos pontos essenciais dessa nova dinâmica familiar é a diluição ou em alguns casos o desaparecimento da relação de autoridade. Isso tem reflexos diretos na escola, que acaba tendo dificuldade no trato com os jovens, porque, para seu desenvolvimento, é preciso esforço. Então, quando não se exige esforço do jovem, quando se facilita demais, a pessoa não vê mais o esforço como valor. E por que as famílias não estão fazendo isso? Existem várias teorias, uma delas está inserida nessa cultura consumista em que o ter é mais importante que o ser. Nesse sentido, os pais acham que estão dando o melhor de si à medida que estão fornecendo coisas para seus filhos, em detrimento da presença. Vivemos em uma sociedade de empreendedores, executivos. Nesse modelo, as pessoas têm de se dedicar muito ao trabalho. Os pais chegam em casa esgotados. Não existe tempo, disponibilidade. E há um senso comum, em que distorceram inclusive conceitos da psicologia, de que não se pode frustrar o menino. Há um excesso de tentar sempre manter a autoestima da criança, associando a frustração com sofrimento.

Patrícia Ragone: E como os pais chegam em casa? Tão saturados que os meninos pensam o seguinte: o mundo do trabalho é um mundo que satura, que deprime. Temos de ter cuidado e nos questionar: eu guardo energia para chegar em casa e ter com meus filhos uma relação que me possibilite conhecê-los? Porque o entendimento hoje dos pais de conhecer os filhos passa muito mais por vasculhar e ter a senha das redes sociais do que sentar-se e poder mergulhar no mundo do filho. Antes, os pais eram emocionalmente disponíveis. Hoje temos pais virtualmente distraídos. Falta essa escuta ativa. Não digo que não devamos ter uma delimitação, mesmo combinar de ter acesso à senha. Mas precisamos conhecer os filhos de outras formas. Não necessariamente no grupo de WhatsApp de mães. As mães gastam tanto tempo no grupo de WhatsApp que já chegam para conversar com o filho com base no que viram no grupo, sem perguntar, olho no olho, "o que você tem a me dizer sobre isto?".

José Belizário: Se esses filhos estiverem na mídia digital, não vão conseguir conversar. Se não regularmos o tempo de mídia e o tempo de sono deles, não tem jeito.

Humberto Corrêa: E não é questão de culpar os pais. Os pais estão precisando de ajuda.

Cristiane Barreto: Acredito que precisamos partir do pressuposto de que o mundo sofreu mudanças importantes e sem retorno. Não nos cabe ser nostálgicos. Há uma responsabilidade coletiva que exige, a meu ver, não pensar em crianças adoecidas, por um lado, e pais que precisam de ajuda, por outro. Existe, sim, uma sociedade com formas de se comunicar, de amar, muitas vezes desastrosas. Precisamos nos implicar em construir espaços coletivos respeitando o estilo de cada um.


Alexandre Rezende/Encontro
Rosângela Teles | "Além de focar nos pais, temos de observar a escola, que, estrategicamente, pode contribuir muito" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Quando os jovens "chamam a atenção"

Patrícia Ragone: Há uma tendência de os pais se cegarem para isso, não acreditarem que isso possa acontecer, e acontece. Quando um menino, em dias quentes, está com capuz, moletom, manga comprida, e o pai achar que é da fase do desenvolvimento… não é. Investigue. O adolescente pode estar se mutilando. A automutilação é fator de risco para o suicídio. Há ainda sinais cognitivos, quando começam a falar "não estou satisfeito", "essa vida não presta". Fazer alguns desapegos materiais é um sinal importante. Quando há mudanças muito bruscas em relação a como se comportavam.. Os pais tendem a achar que é uma manipulação. E esses sinais não podem ser negligenciados. Ainda que o jovem não chegue ao ato em si, ele já está no processo de morrência.

Cristiane Barreto: Quando os pais alegam, com conotação negativa, que o filho está "chamando a atenção", eu inverto isso, pois, se faz algo para chamar atenção, é preciso que o olhar deles esteja ali. Quando falam sobre essa questão de "manipulação", ora, é bom que a pessoa saiba manipular com a linguagem, pois é com ela que se faz laço social. Pensar nas ações de alguém como manipulação, no sentido de má-fé, para se conseguir o que se quer costuma não passar de julgamento moral, que contribui pouco para escutar o que está em questão.

Humberto Corrêa: Se a pessoa usa isso "para chamar a atenção", temos de pensar que ela está precisando de ajuda.

Escola

Rosângela Teles: Como esse é um fenômeno multifatorial, e cada caso tem sua própria complexidade, precisamos também pensar em rede. Além de focar nos pais, temos de observar a escola, que, estrategicamente, tem acesso aos pais e pode contribuir muito. Os professores também têm de estar preparados para lidar com essas subjetividades.

Humberto Corrêa: No ano passado, foi publicado um estudo europeu interessante. Eles testaram abordagens de prevenção de suicídio entre estudantes. No primeiro mês de aula, professores falaram em sala sobre suicídio, ansiedade, depressão, álcool etc. Monitores treinados reuniam-se com alunos para falar desses assuntos, havia cartazes espalhados nas escolas, e cartilhas foram entregues para eles levarem para casa. Isso reduziu durante o ano escolar inteiro o comportamento suicida dos alunos. Ou seja, falar sobre suicídio não aumenta o risco, diminui. Mas tem-se que falar de forma adequada. Um exemplo: outro dia eu vi minha filha estudando ciências, mitocôndrias. Era o detalhe do detalhe do detalhe que, para mim que sou médico e trabalho com genética, não faz a menor falta. Ela estava estudando isso, mas na escola não conversam sobre as emoções, ansiedade…

Cristiane Barreto: A escola tem dever de dizer para o estudante que ele não é só aquilo que parece estar determinado pelo discurso dos pais. Na adolescência ele tem de se desgrudar disso para ser outra coisa. E a escola tem de fazer com que esse desejo e essas descobertas  não sejam mortas cotidianamente. Hoje tem sido mais importante discutir detalhes insignificantes nas matérias do que discutir sobre a vida. Não se trata de recusar a conversa sobre o suicídio ou a dor de existir, podemos falar da morte, se isso ronda. E fazer ver, entender, que o suicídio não é uma solução, muito menos a única saída, frente à dificuldade que é viver. A adolescência é um período de travessia difícil, mas não precisa ser trágica. É também nesse período que acontecem encontros que mudam o rumo da vida, por vezes, para melhor.


Alexandre Rezende/Encontro
José Belizário | "O que vemos são jovens com sintomas impressionantes de vício e de abstinência quando tiramos o celular deles" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Veja onde procurar ajuda

Em casos de emergência: SAMU 192, UPA, Pronto-socorro, Hospitais
Serviços de saúde: Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde

Centro de Valorização da Vida
Telefone 181 (ligação gratuita) ou www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Voip, 24 horas, todos os dias. Em Belo Horizonte, o posto fica na rua Desembargador Barcelos, 1.286, Nova Suíça (horário: 15h às 23h, diariamente)

Grupo de apoio a enlutados por suicídio (Gaes)
: gaesufmg@gmail.com (informações e inscrições)

Educar os filhos na era da tecnologia é um desafio, diz a pediatra Dra. Filó


Após palestra que bombou nas redes sociais, ela fala sobre a dificuldade de pais educarem seus filhos em um mundo no qual a tecnologia leva, silenciosamente, perigos para dentro de casa

 por Marina Dias  20/03/2018 14:02
Samuel Gê/Encontro
"Observo que muitos pais não dão limites aos filhos não é porque não querem, mas porque não sabem. Eles me procuram para me pedir ajuda sobre como impor limites aos filhos. Eu tento ajudar, mas esse papel é de pai e mãe. E, para dar limites, os pais precisam ter seus próprios limites" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Você apostaria na viralização de um aúdio (portanto, sem imagens), de 45 minutos de duração, na internet? Pois foi exatamente o que aconteceu com uma palestra proferida no Colégio Santo Antônio. Por trás da surpreendente repercussão, está a médica pediatra Filomena Camilo do Vale, conhecida por dra. Filó, e suas contundentes afirmações sobre como educar filhos. Na verdade, o problema é mais profundo. Por trás de toda essa repercussão reside um dilema: a enorme dificuldade que pais desta geração estão tendo para educar seus filhos, notadamente diante das tentações e perigos que a internet trouxe para dentro de nossas casas.

Diante disso, a experiência, aliada ao jeito firme com o qual dra. Filó transmite seus ensinamentos, soa como luz na escuridão. A médica não atende a novos pacientes, porque não dispõe de mais horários. Tampouco aceita convites para novas palestras. Mas ela não abre mão de sua rotina semanal na igreja do Belvedere e em hospitais públicos, como a Santa Casa; também não deixa de atender quem já é seu paciente (a qualquer hora do dia ou da noite).

Neste ano, quando foi convidada pelo Colégio Santo Antônio para debater um tema de sua escolha com pais de crianças entre 9 e 11 anos, dra. Filó não teve dúvidas: decidiu dividir sua vivência no consultório e relatar os casos cada vez mais precoces de síndrome do pânico, depressão e até suicídio. De acesso a redes sociais até a importância de ensinar os pequenos a andar de bicicleta, ela fala sempre de um jeito simples, fácil de entender, mas duro e firme. Nas palestras, ressalta principalmente o papel dos pais na imposição de limites e na construção da autoestima dos filhos. Reforça, ainda, como é trabalhoso, mas necessário, olhar de verdade para eles. "Observo que muitos pais não dão limites aos filhos não é porque não querem, mas porque não sabem. Eles me procuram para me pedir ajuda sobre como impor limites aos filhos. Eu tento ajudar, mas esse papel é de pai e mãe. Pode buscar ajuda, o que não pode é deixar de tentar", diz.

A médica, contudo, aponta um caminho para quem carece de apoio nesse quesito: "Você não dá o que você não tem. Para dar limites, os pais precisam também ter seus próprios limites."

Dra. Filó não fala com base em estatísticas. Ela apresenta casos que viu no seu próprio consultório, que abriu há mais de 25 anos em BH. Como ela mesma diz, vida de pediatra é uma doação. "Se você não ama profundamente, não escolha essa especialidade", afirma. No caso da mineira de Oliveira, de 56 anos, a profissão nem parece ter sido escolha. Filó conta que, depois que passou no vestibular, sua mãe finalmente lhe confessou sua "predestinação". "Ela me disse que, quando eu nasci, o obstetra me segurou e falou: ‘nasceu uma médica’."

Nessa vida de doação, sobra pouco tempo livre, muito do qual ela ocupa com sua fé. São famosos os grupos de oração que ela realiza, toda terça-feira, na igreja Nossa Senhora Rainha, no Belvedere. Estão sempre lotados. E agora, ela e o marido, o engenheiro Anselmo de Carvalho, também se dedicam ao papel de avós. O pequeno Felipe, filho de sua enteada Lívia Carvalho, tem 1 aninho. "Na casa de vó tudo é doce. Avó é mãe de mel", diz.

Quem é: Filomena Camilo do Vale, 56 anos
Origem: Oliveira (MG)
Formação: Graduada em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com residência médica em pediatria pelo Hospital da Baleia e em cardiologia infantil pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Tem mestrado em saúde da criança e do adolescente pela UFMG
Atuação: É médica diarista do CTI pediátrico da Santa Casa de Misericórida de Belo Horizonte e tem consultório particular

A senhora esperava a repercussão que o áudio teve?

Foi um susto para mim. Eu fui para uma conversa informal no Colégio Santo Antônio. Como em 2017, as coordenadoras me ligaram para falar aos pais das crianças de 9 a 11 anos neste início de ano letivo. Elas não estabeleceram qual seria o assunto, pediram que eu escolhesse, apenas levando em conta a faixa etária dos meninos. E como a questão da construção da autoestima para mim, hoje, é um ponto muito sério – afinal, todo mundo sabe o que é uma alimentação boa, por exemplo, quais são alimentos que fazem bem, quais fazem mal –, achei que seria melhor para os pais ouvir sobre isso. Mas foi absolutamente sem pretensão. E a palestra atravessou fronteiras, foi para fora do Brasil! Isso foi um impacto, um susto muito grande. Até agora não sei explicar o que aconteceu. Não sei se foi uma realidade muito rasgada.

E por que a sua principal preocupação é com a autoestima das crianças?
A preocupação é quanto ao adulto que ela será e, portanto, a atenção que precisamos ter na construção da criança. Quando se recebe um filho, recebe-se um mistério. A família precisa trabalhar em sua construção. Tudo que se deseja é que ele seja uma pessoa inteira: uma pessoa de equilíbrio, que seja um bom cidadão, que saiba viver as dificuldades da vida e que tenha consciência daquilo que ele é. Que seja uma pessoa com limites, que saiba conviver com aquilo que é diferente, que saiba respeitar o outro. E a criança vai aprendendo com aquilo que ela vive e vai realizando aquilo que aprendeu. Portanto, temos de atentar: o que ela está vendo? Como está vivendo? Como está experimentando as coisas?

Colégio Santo Antônio/Divulgação
(foto: Colégio Santo Antônio/Divulgação)
E os pais são os principais atores nessa construção?
A grande escola da criança são o pai e a mãe, a família. Pai e mãe são o maior referencial. Isso vai desde o bebê, que só vai no colo de outra pessoa se, ao olhar para os pais, receber uma permissão, sentir confiança para isso, até a idade adulta. Dura para sempre.

Como identificar que a criança está com a autoestima baixa?
A criança tem suas marcas. A principal é a alegria. Qual a razão de ela não ser feliz? Qual a preocupação que uma criança tem? Só brincar. Então é importante observá-la. Eu digo sempre que a consulta médica não começa com exame, começa quando se olha para a criança. É preciso aprender a olhar, a enxergar, a ver. O menino não quer brincar? Não é normal criança não querer brincar. Outra coisa importante é acompanhar seu desenvolvimento. Então pergunto sempre: como ela interage? Tem amigos? É capaz de desenvolver as habilidades relativas a sua idade?

Como estimular esse desenvolvimento de habilidades?
Quando se começa a ensinar equilíbrio? Quando dou uma bicicleta para a criança. Com 3 anos ela pode aprender, e precisa ter meta: vamos aprender a andar com rodinha, depois de "x" meses, vamos tirar a rodinha. Ela vai cair? Claro! Mas tem um adulto atrás que fala "levanta, meu filho. Começa de novo". Essa frase é para a vida. E ela precisa saber para, no futuro, quando os amigos forem andar juntos, ela poder ir também. Outra coisa: tem de pular corda. Para pular corda, precisa ter timing; isso ajuda o menino na concentração na escola. Com 3 anos, a criança precisa aprender a nadar. Nessa idade, já consegue fazer a sincronia entre respirar, bater braços e bater pernas. E aos 7, quando a escola fizer piscinada, ele não vai ficar acanhado porque não sabe nadar. Uma das coisas que fico mais encantada numa consulta é olhar a criança do joelho ao pé. Quanto mais machucado, mais estrupiado, melhor. Eu falo com eles: "sabe o que a tia Filó está lendo nas suas perninhas? Felicidade".

E nessa infância atual, em que as crianças às vezes preferem o tablet, como incluir essas brincadeiras?
É preciso ter equilíbrio. Meu filho vai ter horário do tablet? Vai. Mas não posso deixá-lo apenas lá. Ele precisa ter tempo da escola, tempo do esporte, tempo de brincar. E são brincadeiras simples. Monta um boliche, daqueles de R$ 1,99! A criança tem de andar para montar as garrafinhas e voltar. Aí derruba: tem de ir lá, montar e voltar. Daqui a pouco está morta de tanto andar. Também tem de ser capaz de criar, de pensar, não pode só repetir, seguir ordens. É preciso, ainda, dar à criança o hábito de leitura, de contar histórias. Antes de dormir não pode nada eletrônico. Pode escutar histórias. E os pais podem aproveitar para contar a sua própria história, senão os meninos acham que a vida é mágica. Tem de saber que, se o pai pode dar a ele isso hoje, é porque estudou, trabalhou, acordou cedo… houve uma construção. Não pode ser simplesmente "me dá" ou "passa no cartão de crédito" e pronto.

Samuel Gê/Encontro
"É como se a criança estivesse caminhando numa ponte sobre um abismo: ela precisa de um parapeito para se proteger. Se tiver essa proteção, caminha firme. Se não, vai retroagir, vai ficar insegura e não vai andar. Criança não pode ficar sem limite" (foto: Samuel Gê/Encontro)
E como impor limites aos filhos?
É como instalar um parapeito. O que o menino vai fazer quando vir que foi colocado um parapeito onde antes não tinha? Vai chutar, vai balançar. O parapeito mexe? Não. Se você colocar limites, ele vai tentar confrontar. Mas se vir que aquilo permanece, você gera confiança nele. E ele precisa entender que você está fazendo aquilo para protegê-lo. Como eu disse na palestra: o rio só corre porque tem margem. A criança será um adulto inteiro apenas se tiver limites. Tem autores que falam que uma criança vivendo a vida é como se ela estivesse caminhando numa ponte sobre um abismo: ela precisa de um parapeito para se proteger. Se tiver essa proteção, caminha firme. Se não, vai retroagir, vai ficar insegura e não vai andar. Criança não pode ficar sem limite.

A criança consegue entender o motivo dessas imposições?

É preciso explicar a ela. Quando os pais falam "não pegue a faca", devem dizer que é porque, se a criança pegar, pode se cortar. Ela vai tentar mais uma, duas, três vezes… mas vai entender, toda vez, que o motivo para o "não" é o mesmo. Contudo, se hoje falo "não pegue, porque você pode se cortar" e amanhã estou muito cansada e a deixo pegar, ela não vai entender. E a imposição de limites não é para se ter uma criança disciplinada para ser obediente. É para que ela saiba fazer o que é certo independentemente da presença do adulto, pois ela já entendeu o porquê daquilo.

Quanto à internet e redes sociais, de que forma trabalhar com limites?

Não é questão de proibir o uso, mas de regrar, restringir. Dependendo da idade, a criança não tem maldade para saber que não se pode colocar toda a sua vida no Facebook porque do outro lado da tela pode existir alguém que trará prejuízo para a vida dela. Quem precisa ter essa maldade somos nós. E aí ela vai poder ver vídeos, fotos dos amigos, enfim, as coisas que você permitir que ela veja. Mas à medida que a criança tem 9, 10, 11, ela tem de saber que há pessoas do outro lado da tela que podem lhe fazer mal.

A senhora diz que poucas crianças de 12 anos não viram pornografia. O que fazer caso os pais descubram que o filho teve acesso a esse tipo de conteúdo?
Sentar e conversar. Tudo precisa da verdade. A verdade liberta. Você deve falar "meu filho, essas coisas existem. Mas elas edificam? Isso é bom para você?" Tudo pode, mas nem tudo devo. Existe a curiosidade natural e também o desejo de desafio daquele adolescente – que não é mais criança, mas ainda não é adulto. Ele acha que pode desafiar os pais, acha que está driblando ao acessar conteúdos impróprios, usando drogas… É preciso sempre conversar com esse adolescente, estabelecer regras e mostrar quais são os riscos das atitudes.

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A senhora fala sobre a importância de a criança aprender a lidar com a frustração. Como ajudá-la a construir isso?
Quando ela quiser fazer alguma coisa para a qual não está apta, vai receber o "não". E aí vai aprender a lidar com isso. Para uma criança de 6 anos, por exemplo, "você não pode atravessar a rua sozinha". O "não" tem de ser firme, não se pode mudar de ideia se a criança pressionar, do contrário não se estabelece a coerência. Além disso, as verdades têm de ser ditas, ela precisa entender o motivo. Assim a criança vai parar, pensar e vai conseguir trabalhar essas questões dentro de si. Isso é devagar, mas a criança faz esse processo. "Se minha mãe falou que não posso atravessar a rua sozinha com 6 anos, é porque posso ser atropelada e me machucar, então preciso dar a mão para alguém, porque nesta idade não sou capaz de perceber o perigo."

Como não atingir a confiança dela ao dizer que ela não está preparada para algo?
Uma coisa é ela ainda não dar conta, outra é ser incapaz. Os pais devem dizer que, nessa idade, ela ainda está treinando. Podem dizer que, agora, eles atravessam a rua de mãos dadas. Depois, atravessarão lado a lado, sem segurar as mãos. Que é uma fase.

Quais são os sinais de que algo de errado está acontecendo com a criança?
Os pais precisam, de fato, procurar para ver se algo está diferente: um olhar diferente, comportamento diferente. Se o menino que conversa, interage, vai bem na escola e sempre teve uma evolução boa, de repente, começa a cair de rendimento escolar, por exemplo, é sinal de algo que não está certo. E é obrigação dos pais procurar, ver o que pode ser, abrir a rede social. Uma mãe me disse "mas o Whatsapp da minha filha é só com colegas de escola!". Abra mesmo assim. E se ela estiver sofrendo bullying, como eu tive alguns casos no consultório? Essa paciente, meiguinha, linda, caladinha, não disse nada, mas estava sofrendo bullying de uma coleguinha. Se você não olhar para o seu filho, não verá. Adolescente pode ficar trancado em quarto? Isso não é marca do adolescente, que anda em bando. É a isto que pais precisam estar atentos: qual o comportamento normal para cada faixa etária.

A senhora é da opinião de que criança não pode ter senha...
Claro que não pode. Os pais precisam checar o que o filho está fazendo a hora que quiserem. Em todos os casos que presenciei [de problemas na internet], a mãe ou o pai desconfiou porque o filho estava mexendo demais no celular. Quando se entrega um telefone na mão do filho, entrega-se um mundo abertinho para ele. O mundo na palma da mão. Não se sabe o que ele está vendo. O pai às vezes fica tranquilo, pois pensa que o menino está em casa. Mas não está, está no mundo, aberto para ele, com milhões de possibilidades. E a pedofilia, por exemplo, é uma assustadora realidade hoje, da qual a criança não tem dimensão e não tem condição de reconhecer. Pedófilos mandam vídeos para os meninos verem e repetirem – e eles o fazem com o celular. Você precisa ver as coisas que eu vi, os casos que tive. Então não pode ter senha, porque não tem maturidade para tal. Se acontece algo, como é que acessamos os aparelhos para descobrir para onde esse menino ou essa menina foi?

O que esses pacientes a que a senhora se refere, vítimas de crimes cibernéticos, de pedofilia, tinham em comum?
A autoestima baixa. Uma delas era recusada pelos colegas, não estava bem na sala, ficou muito fechada e foi para o computador. Entrou num chat, tinha alguém lá que a convidou para uma conversa sozinha, e assim foi. Quando viu, havia foto dela nua sendo vendida mundialmente. E, quando o adolescente percebe o que está acontecendo, fica deprimido. Tive um caso em que o pai me ligou e falou que tinha algo errado com a filha: ficava só no quarto, o rendimento escolar havia caído etc. Perguntei: "já abriu a rede social?". O pai resistiu. Eu disse que a veria, faria os exames, mas que achava que a doença dela não era física. Quatro meses depois, recebi um telefonema, o pai mal conseguia falar, de tanto que chorava. Havia descoberto que a menina tinha dois perfis no Facebook, um para a família, outro para o mundo, e estava tendo casos por lá.

Samuel Gê/Encontro
"Quando você entrega um telefone na mão do filho, entrega um mundo abertinho para ele. O mundo na palma da mão. Você não sabe o que ele está vendo. O pai às vezes fica tranquilo, pois pensa que o menino está em casa. Mas não, está no mundo" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Por que a internet é tão sedutora?
O mundo virtual te aceita. Nele eu posso mentir, posso dizer que sou uma coisa que não sou. No mundo real, você está me olhando, pode não gostar do meu cabelo, do meu batom, pode pontuar coisas que eu não estou a fim de saber. Na internet, quando não quero ouvir, eu tenho o poder de apagar. Na vida real, é preciso conviver, ter confrontos. É por isso que crianças e adolescentes curtem tanto a internet. É mais fácil viver num mundo de fantasia do que encarar a vida real. Se a gente não acordar, os meninos se tornarão couch potatoes [pessoas que ficam muito no sofá, sedentárias, na televisão ou na internet]. Tive um paciente outro dia que, aos 13 anos, pesava mais de 90 quilos. Mas volto ao mesmo assunto: ninguém deita magro e acorda gordo, nem o inverso. O que está faltando é ver.

Como a senhora avalia a atitude da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) contra as canções de funk?
Fiquei orgulhosa da SBP. Há clipes e vídeos que induzem a violência, naturalizam o estupro. Está tudo muito vulgar. Então eu fiquei feliz, pois pensei que estivesse sozinha nessa luta, que estivesse como Dom Quixote. Fico feliz que não seja a única achando isso.

O que os pais podem fazer, se muitas vezes o contato das crianças com essas músicas se dá nas escolas ou em festas?
Pai e mãe têm de sentar e conversar. Mas a intenção da SBP é impedir que isso seja tocado, porque somos responsáveis pela formação física, mental, espiritual da criança. Temos de permitir que ela cresça num ambiente que seja saudável. Temos de dar um alicerce.

Os pais estão com mais dificuldades em criar os filhos hoje?
Antigamente, eles iam ao consultório com uma questão específica de uma doença. Hoje pedem muita ajuda de criação. E, quando pais buscam ajuda, grande parte é quanto a como lidar com o excesso.

E os casos estão cada vez mais impressionantes?
É tanta síndrome do pânico, depressão, anorexia. É normal uma menina ter síndrome do pânico aos 8 anos? Tentar autoextermínio aos 10? Não. A síndrome do apontador [crianças que usam a lâmina do apontador para se cortar]? E eu me pergunto: qual é a angústia? Qual é o sofrimento em uma geração que tem tudo? Onde está a ausência? Será que não estamos dando demais? Esses meninos não têm mais desejo, não têm tempo de desejar. Por que tudo tem de ser premiado?

Outro ponto que a senhora ressalta na palestra é a importância de a criança compreender que as atitudes têm consequências.
Sim. Desde cedo. O que fazer quando o menino pequeno corre e bate em uma mesa? Você vai lá bater na mesa e falar que ela é boba? Se faz isso, ensina que toda causa de sofrimento dele é o outro. Ora, a mesa está parada. Você deve explicar que, sempre que ela correr e não olhar para frente, vai se machucar. Isso vai sendo construído. Ela precisa entender que é responsável por seus atos. A mãe de uma paciente me ligou certa vez e disse que havia descoberto que a filha de 12, 13 anos, estava tendo vida sexual. "Faço vista grossa, Filó?", ela me perguntou. Eu disse que não, de jeito nenhum. Não se pode fingir que não está vendo. Falei: "Faça o contrário. Acenda todas as luzes da casa. Sente-se com ela e diga que ficou sabendo, e pelo Facebook". Disse que deveria explicar as consequências. Ela pode impedir a menina de fazer alguma coisa, pode andar 24 horas com ela? Não. Mas pode conversar. Os problemas da atualidade têm de ser resolvidos de frente. Não vamos tapá-los, escondê-los debaixo do tapete. E é preciso estar atento. O menino está esquisito? Cheire-o. Veja como ele está chegando da festa, não apenas fique em seu celular e confira se o Uber o deixou em casa.

Como a espiritualidade pode ajudar as crianças?

Acho que nós não somos só isso que parecemos ser, não somos só matéria. Então, na minha opinião, o que precisa ser introduzido na vida das crianças é a noção de sentido da vida. Com 4 anos de idade, a criança passa a ter consciência de morte, começa a descobrir que pai e mãe vão morrer. E a criança pode perder alguém. Aí fica a questão: leva ao velório? Leva. Um dos direitos da criança é saber que existe a morte. Não pode haver mentira, ela tem de viver o luto. E o como trabalhar a perda fica de acordo com a crença da família. Na minha visão – não é o que as famílias têm de fazer, é minha opinião –, se lhe dou a consciência de que a vida é eterna, que não se encerra com a morte, isso pode ajudar a lidar com a morte, pode ser melhor do que não ter esperança nenhuma. É preciso mostrar o sentido da vida: a convivência, a fraternidade, a solidariedade, cuidarmos uns dos outros, do planeta… Senão, vamos viver só voltados para o próprio umbigo.

E o que fazer quando os filhos não quiserem frequentar a igreja, por exemplo?
Deus não pode ser obrigado. Mas todas as crianças que conheço cujos pais têm verdadeira fé, elas vão, porque descobriram que não é uma obrigação, é um encontro com Aquele que a criou. A criança vai viver da forma como os pais conduzem. Se lhe mostro a imagem de um Deus juiz, que vai me pegar em uma curva, ela pode se rebelar contra ele. Mas se mostro um Deus pai de amor, quem não quer? Quem não quer um colo desses? 

"Pais não sabem organizar a família"

ENTREVISTA | JOSÉ BELIZÁRIO

Psiquiatra infantil diz que pais devem mudar hábitos - entre eles, passar a dormir mais cedo - e estabelecer a rotina da casa caso queiram filhos mais tranquilos e com menor risco de problemas futuros
Marina Dias
12/06/2015 09:52 - Atualizado em 12/06/2015 10:03
Se criar filhos sempre foi difícil, o desafio ficou ainda pior na era da informação, dos aparelhos eletrônicos portáteis, do WhatsApp e de todas as novidades tecnológicas que surgem quase diariamente.

Não é de estranhar o grande interesse que o assunto desperta nos pais e educadores. Prova disso são as mais de 1,3 mil pessoas que lotaram a paróquia Nossa Senhora Rainha na noite de uma segunda feira de abril para assistir à palestra do psiquiatra infantil José Belizário sobre como educar e impor limites aos filhos na atualidade.  A convite da pediatra Filomena Camilo do Vale – a dra. Filó –, que é palestrante regular da igreja, ele deu o recado: a base de muitos problemas está no hábito de dormir tarde. Há 30 anos, diz, o normal era dormir às 21h. No começo deste século, já tinha passado para as 23h. O resultado são crianças e adolescentes menos atentos à aula, mais sonolentos ao longo do dia, mais explosivos e ansiosos – fora possíveis consequências mais graves no longo prazo, como maiores índices de depressão entre jovens, doenças relacionadas ao sistema endócrino, entre outras. “Em nenhuma das 10 melhores cidades para se viver no mundo, as pessoas dormem tão tarde”, diz Belizário.

Para o médico, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, a chave é muito diálogo, mas também a organização da rotina da família toda, não apenas dos filhos.

ENCONTRO - O senhor disse que nosso padrão de sono se alterou muito nos últimos anos. Como isso aconteceu?
JOSÉ BELIZÁRIO - Ao longo dos últimos 30 anos, as emissoras de televisão mudaram o horário da família brasileira em três horas. Nós, que dormíamos rotineiramente em torno das 21h30, passamos a dormir, a cada década, uma hora mais tarde. No começo deste século, o horário familiar de sono tem sido em torno das 23h. As programações infantis vão até as 22h nos canais abertos, e nas TVs a cabo, até mais tarde. E a mídia infantil não é regulada, então as novelas mostram sempre crianças para atrair público infantil. Essa é uma estratégia que foi modificando os horários. Para completar, nos últimos anos, ainda apareceram computador, internet, e isso piorou a situação. Aparelhos eletrônicos como celular e tablet emitem uma faixa de onda azul que não enxergamos, mas que piora a qualidade do sono.


- Foto: Gláucia Rodrigues/Encontro
Então, a culpa é das emissoras de TV?
O horário de maior acesso, e o mais caro também, é aquele em que a família assiste junto à TV. Esse Ibope é medido em São Paulo, e a família paulista, por causa do trânsito absurdo, foi chegando em casa cada vez mais tarde. Isso foi sendo acompanhado, o que significou mudança gradativa desses horários para todos. Hoje, ele é muito tarde. As pessoas veem futebol às 22h.

Isso não existe! Imagine o trabalhador sair do estádio à meia-noite, sendo que vai trabalhar às 6h do dia seguinte. Isso é absurdo.

Então dormir mais tarde é uma tendência no Brasil, mais do que em outros países?
Exatamente. Isso é mais grave aqui. As crianças inglesas, por exemplo, dormem bem mais cedo, por volta das 19h30. Minha sobrinha de 7 anos, que morava em Londres até o ano passado, perguntou para as amiguinhas, a meu pedido, sobre o horário de dormir tanto das inglesas quanto das brasileiras. Os horários das inglesas são entre 19h e 20h. Já as brasileiras dormem entre 22h e 22h30. A diferença é grande! Brasileiros, quando vão para Viena (Áustria), por exemplo, e saem à noite, acham que é horrível, pois não tem nenhuma bagunça. Mas é que os vienenses, mesmo tendo computador, internet, tudo de melhor, dormem cedo. Eu brinco que nas 10 melhores cidades do mundo para se viver as pessoas dormem cedo, no máximo às 22h.

Quem teve essa ação forte foi o Brasil e a China, que tiveram capitalismo tardio. E o governo não protege as crianças ou pessoas no geral desta tendência, porque acham que é normal. Mas não é. E, como se trata de um fenômeno ocorrido pouco a pouco, ninguém percebeu. Muitas pessoas, após a palestra, questionaram: “Mas minha mãe sempre dormiu nesse nosso horário e nunca teve problema”. Mas pergunte à avó: ela não dormia.

Por que dormir cedo é importante?
O hormônio que faz você ter melhor qualidade de sono é a melatonina, que é inibida pela luz dos aparelhos eletrônicos. Assim, não se tem o sono mais profundo (o de ondas lentas, que é o estágio 4 do sono), que é quando o cérebro se recompõe. Outro ponto importante é que o corpo demora três horas para chegar ao sono mais profundo, e o hormônio do crescimento, por exemplo, tem seu pico à meia-noite e meia, independentemente da hora em que se foi dormir. Se você foi dormir às 23h, não pega esse pico, porque ele precisa coincidir com o sono profundo. E esse hormônio, aliás, é essencial para todo ser humano, não apenas para crianças e adolescentes. Em relação à depressão, por exemplo: o hormônio do crescimento chega à célula do cérebro que faz a seratonina (que protege da depressão) e faz crescer a proteína dela, o que significa mais seratonina no dia seguinte. Então, sempre que se dorme mais tarde, estocam-se menos substâncias do seu cérebro para o dia seguinte. O dia seguinte é pior. A pessoa comete mais erros por falta de dopamina, tem mais chance de se deprimir por falta de seratonina, etc.

Então o horário é tão importante quanto a quantidade de sono?
O número de horas de sono depende de cada pessoa. Há quem precise de dez, oito ou seis. O importante é que o tempo de sono esteja incluído entre 21h e 3h. O horário é muito importante. Para crianças que estão na escola, então, é fundamental. Afeta o desempenho escolar e a perda é enorme. Há um estudo inglês, chamado A extensão do sono e a performance do adolescente com redução crônica do sono, de 2013, que mostra perdas nítidas em matemática e em inglês nos alunos que não têm regularidade para dormir.

Quais são as consequências, em crianças e adolescentes, dessa falta de regularidade no sono?
Dificuldades atencionais, como não conseguir prestar atenção na aula, dormir em sala, dificuldade de se manter alerta. Percebe-se também que o índice de depressão em idades muito precoces tem aumentado. Não posso afirmar categoricamente, mas temos também encontrado mais distúrbios endocrinológicos na infância, hipotireoidismo, diabetes.


'As crianças inglesas, por exemplo, dormem bem mais cedo, por volta das 19h30' - Foto: Gláucia Rodrigues/Encontro
Adolescentes têm ficado mais agressivos, ansiosos?
A adolescência é uma grande confusão. O que regula isso são alguns hormônios produzidos durante o sono, que são a adrenalina, seratonina e dopamina. Meninos que não dormem nesse horário não têm quantidade suficiente dessas substâncias para regular o comportamento. E um rapaz de 16 anos deprimido, por exemplo, não vai ficar chorando na cama, vai ficar impulsivo, explosivo. Uma menina de 13 anos que dorme tarde, no auge da menarca, também vai ficar mais explosiva. Até porque adolescentes brasileiros fazem pouca atividade física na escola.

A atividade física tem papel importante nisso?
É essencial para o desenvolvimento, tanto quanto o sono. Aprendizados corporais persistem mais. Eles organizam o corpo e as relações sociais, e isso é básico na infância e adolescência. Adolescente que não pratica atividade física será uma bomba-relógio. Ele tem mais hormônios e precisa regular isso, e a atividade física é uma forma natural de fazê-lo. No entanto, temos escolas famosas de BH onde ninguém faz atividade física. Eu brinco que os alemães dormem cedo, fazem atividade na escola, têm aula só pela manhã e ganharam de 7 a 1 do Brasil na Copa do Mundo. Quando a gente era assim, a gente ganhava. Depois começamos só a perder.  

Como a chegada dos aparelhos eletrônicos influenciou nisso?
A primeira chegada trágica foi a da internet discada, que era mais rápida de madrugada. Os adolescentes passavam a madrugada jogando por causa disso. A segunda foram os celulares e tablets com WhatsApp, Facebook, que também agravaram muito, pois as pessoas ficam esperando os outros responderem, olhando Instagram, independentemente do horário. E o pior emissor dessa luz azul que atrapalha o sono são esses aparelhos, que sempre usamos muito perto dos olhos.

E crianças estão usando esses aparelhos cada vez mais novas...
Acho que elas têm de usar, não há como evitar. Mas cabe à família organizar o uso. Celulares e tablets, por exemplo, têm de ser desligados, no caso de crianças mais jovens, em torno das 20h. Aí é a hora de a família conversar, ler, fazer outras atividades.

Como os pais podem dosar o uso de tecnologia pelos filhos?
Depende de faixa etária, mas existe um indicador muito claro. Se a criança está jogando de forma que a impeça de ter atividades pessoais ou que fique muito irritada durante o jogo, é sinal de que está demais. Algumas crianças vão apresentar essa irritabilidade depois de quatro horas, outras, depois de duas horas, outras, meia hora. Depende do jogo, depende da criança. O problema está nas atividades que viciam, que a pessoa não consegue parar. A violência – que é uma questão para muitos pais quanto aos games, por exemplo – não está no gráfico. Está no tempo de jogo e na compulsão de jogar. Tecnologias são fundamentais. O problema não está nelas, está em como administrá-las.


'A adolescência é uma grande confusão' - Foto: Gláucia Rodrigues/Encontro
De que forma se deve criar nos filhos o hábito de dormir cedo?
A chave é fazer uma abordagem positiva. A primeira coisa é não proibir. Mas pode-se, por exemplo, desligar o wifi da casa às 21h. E oferecer outras estratégias para esse período. Jantar e não ir automaticamente para o computador ou tablet, e sim ir se preparando para dormir. Oferecer a leitura ou outras atividades mais confortáveis que ajudem a relaxar durante a noite. É também importante que eles pratiquem exercícios durante o dia. Outro grande problema é que a maioria das crianças que ficam acordadas até tarde tem pais que também ficam acordados. É preciso ajustar o horário de toda a família. O importante é dar valor para isso, senão fica parecendo que as crianças estão saindo no prejuízo: fica todo mundo feliz, acordado, enquanto elas estão “perdendo”. É não é isso.

Como disciplinar e regrar os horários da criança?
Disciplinar não é uma palavra boa. Organização é que é fundamental, crianças precisam de organização.

Acredita que os pais estão com dificuldade de organizar a rotina nos dias de hoje?
Muita. Pais têm dificuldade até para enfrentar a própria demanda de consumo. Eles querem consumir também, então acabam saindo da regularidade. Em vez de ir para casa na hora do jantar, vão para o McDonalds, que é um programa que já dá uma excitada. A diversidade de coisas que são ofertadas hoje, tanto para crianças quanto para adultos, é muito maior. Então as pessoas têm dificuldade de selecionar o que é importante e o que não é. E elas sempre acham que a rotina não é importante, justamente porque é rotina, sempre igual. Mas, para crianças, é fundamental.

Por que a rotina é tão importante na infância?
A regularidade faz o organismo da criança se adaptar melhor ao mundo e, quando aparecer uma situação adversa, ela vai conseguir superar melhor. É o contrário do que as pessoas pensam. Quando a pessoa fica exposta a uma coisa que não tem sequência, ela se estressa muito mais. E quando surge realmente um problema, ela não tem a organização para lidar com isso. Quando já está organizada, suporta melhor situações diferentes. Rotina dá muito mais segurança.

Mesmo que a rotina envolva atividades excessivas, como aulas de idioma, esportes, música, etc.?
Uma criança foi feita para brincar e correr. Na sala de aula, ela não faz isso. Então, às vezes, tem de fazer futebol, uma atividade física extra, música. Isso não é o problema. Mas é importante fazer com que tudo seja bem organizado e que ela tenha tempo para descansar – e, o que também é essencial, que não tenha de fazer dever de casa depois das 20h, pois, nesse horário, fazê-lo não será produtivo para a criança ou para a família.

Hoje é mais difícil criar um filho do que antigamente?
Frente a todas as disponibilidades de consumo existentes hoje, é difícil resistir a elas para investir realmente nos filhos. Isso é uma questão importante..

Dr Frederico Pimenta

O  Dr. Frederico Silva Pimenta  é um  médico ortopedista e traumatologista  com atuação de destaque em  Belo Horizonte ,  Nova Lima  e  Beti...