CARYN JAMES
DO "NEW YORK TIMES"
Com sua vida independente e seus personagens cinematográficos marcados por uma força de vontade notável, Katharine Hepburn -morta no último domingo, aos 96- tornou-se um modelo para gerações de mulheres e uma heroína amada pelos apreciadores do cinema durante mais de 60 anos.
A presença física de Hepburn era marcante, sua voz frequentemente imitada surgia repleta das vogais de uma mulher bem educada e seu rosto de planos agudos era definido por malares proeminentes. Em sua juventude, ela não exibia a beleza convencional das estrelas, mas era ainda assim uma mulher atraente. Na velhice, tornou-se figura familiar, seu cabelo arruivado foi ganhando tons grisalhos e seu corpo magro era vestido com as calças que ela ajudou a tornar moda entre as mulheres.
Hepburn interpretava mulheres sofisticadas e de humor ágil com uma facilidade que sugeria que a barreira que separava seus papéis de sua vida pessoal não era muito espessa. A comédia romântica "Núpcias de Escândalo" e a comédia "Levada da Breca" foram dois de seus mais típicos papéis.
Sua vida e carreira foram marcadas pelo caso de amor que manteve com Spencer Tracy, uma das grandes lendas românticas e um dos mais brilhantes casais cinematográficos. Tracy era infeliz no casamento, e continuou casado pelo resto da vida. Mas morou com a atriz por 27 anos, até 67, e fizeram nove filmes juntos.
O frisson do romance, que sempre foi comentado, mas jamais admitido enquanto Tracy era vivo, os acompanhava nas telas e se tornou especialmente pungente quando interpretaram um casal em seu último filme juntos, "Adivinhe Quem Vem Para Jantar".
A atriz falou abertamente sobre vida e carreira na autobiografia "Me: Stories of My Life" (Eu: histórias da minha vida). O livro captura as qualidades que tornaram Hepburn cara às platéias: o tom de conversação, a falta de frescura e a franqueza irrebatível.
Querendo ser menino
Katharine Houghton Hepburn nasceu em uma família cuja posição social confortável e opiniões pouco convencionais fomentavam sua autoconfiança.
Em um certo verão, Hepburn decidiu que odiava ser menina, a ponto de cortar o cabelo e se fazer chamar "Jimmy". "Eu achava que ser menina era um saco", disse ela em uma entrevista. "Mas não havia esse problema com Jimmy".
Ela começou a ganhar destaque profissional por seu papel como Antíope na fábula grega "O Marido da Guerreira", que a levou a um teste em Hollywood e ao seu primeiro papel no cinema, em "Um Processo de Divórcio" (32).
Seu último papel, em 94, foi uma ponta emotiva em "Segredos do Coração", de Warren Beatty. E, em típico estilo Katharine Hepburn, ela encarou a câmera e, aos 85 anos, reconheceu tacitamente que seu fim devia estar próximo. "Não tenho medo da morte. Deve ser maravilhosa, como um longo sono. Mas, encaremos: é seu jeito de viver que realmente conta."
Hepburn será homenageada no Festival de Veneza, em agosto.
Tradução Paulo Migliacci
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