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terça-feira, 6 de setembro de 2022

JANETE CLAIR X CRÍTICAS



Em 1980, pouco antes da estréia de Coração Alado na Globo, ela recebeu um repórter da revista Veja para uma entrevista. Janete não ficava à vontade com jornalistas da Veja. Sabia que a revista costumava publicar críticas negativas de suas novelas. Mas, daquela vez, quem sabe seria diferente? Deu a entrevista na sala confortável do casarão da Tabatinguera, posou para fotos à beira da piscina, achou o repórter simpático. Na semana seguinte, com a novela já no ar, as declarações de Janete foram publicadas no meio de um artigo que analisava a novela negativamente. Coração Alado não foi mesmo um dos trabalhos da autora.

Ele encerrava a parceira com Daniel Filho que tinha dirigido Pecado Capital e Duas Vidas, a virada de Janete em direção a um novo estilo mais próximo do de Dias Gomes. Na novela nova, a direção estava a cargo de uma dupla que ainda faria muito sucesso, Roberto Talma e Paulo Ubiratan, mas que errou na mão com o texto de Janete. A autora vinha de uma série de novelas ensolaradas, cariocas, com diálogos leves. Coração Alado era depressiva, com poucas gravações externas e um texto puxado para o melodrama que não se encaixava mais no horário das oito. A sinopse, originalmente batizada de O grande salto (Janete nunca emplacava seus títulos originais. Fogo sobre terra foi escrita com o nome de O selvagem, O homem perfeito, virou Eu prometo), já previa problemas no texto. Ao descrever a gravidez da heroína, a novelista produziu frases como "agora levava dentro de si o estigma, a marca daquela violência, estigma e marca que começava a odiar com todas as suas forças" e "o que tinha diante de si, dali em diante agora se resumia no indesejado ser que pulsava em suas entranhas". Na TV, os diálogos não soavam muito diferente disso. E o repórter registrou tudo em seu artigo crítico.

Na segunda - feira, quando a revista estava chegando às bancas, o repórter atendeu ao telefone na redação. Não acreditou no que ouviu do outro lado da linha:

-- Aqui é Janete Clair.
-- Como vai?
-- Mal. Por que você não me suporta?
-- Isso não é verdade.
-- Para escrever o que você escreveu, é porque não me suporta.
-- Não é verdade, Janete. Eu só não gostei de sua novela.
-- Você me traiu.
-- Mas, Janete, por que você está assim? Você não precisa do que eu escrevo. Você tem o respeito de milhões de espectadores.
-- Você me traiu. Você me enganou. Você veio me entrevistar sabendo que iria falar mal de mim.
-- Eu não falei mal de você. Só da novela.
-- Vai à merda.

Combo sonoro palavrão, o diálogo se encerrou. A crítica da revista não impediu o sucesso de Coração Alado. O repórter nunca mais falou com Janete Clair. Mas talvez ela gostasse de saber que, 15 anos depois, ele escreveu um livro reconhecendo que suas novelas sempre foram melhores que as críticas que lhe eram feitas.

FONTE: "JANETE CLAIR, A USINEIRA DE SONHOS", DE ARTUR XEXÉO.

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O  Dr. Frederico Silva Pimenta  é um  médico ortopedista e traumatologista  com atuação de destaque em  Belo Horizonte ,  Nova Lima  e  Beti...