sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O que é fundamentalismo?


O fundamentalismo geralmente está associado a ideias sectárias, inflexíveis, sobre determinado tema, sobretudo com relação à religião.
É comum hoje em dia ouvirmos, lermos e assistirmos a noticiários que falam sobre o fundamentalismo religioso, sendo tal fundamentalismo geralmente associado às três religiões monoteístas de matriz abraâmica: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Todavia, há outras variações do emprego da expressão “fundamentalismo” que podem ser observadas no debate público, como “fundamentalismo político”, “fundamentalismo econômico” etc. Em todo caso, a expressão sempre denota um sentido negativo, indicando rigidez e inflexibilidade de opinião e compreensão. Além disso, no âmbito religioso, a palavra “fundamentalismo” também se associa a atos violentos, como o terrorismo, e a regimes políticos teocráticos, podendo, assim, ser confundida com outras duas expressões: fanatismo e extremismo (ou ainda sectarismo).

No entanto, o que é, de fato, fundamentalismo? Quando e em que contexto teve origem essa expressão? É o que veremos a seguir.


Origem da expressão “fundamentalismo”

O contexto de surgimento da palavra “fundamentalismo” é o imediato pós-Grande Guerra, isto é, os primeiros anos após a Primeira Guerra Mundial, terminada em 1918. A expressão foi formalmente definida pela primeira vez em 1920 por um pastor americano da Igreja Batista, chamado Curtis Lee Laws. Curtis Laws estava vinculado ao movimento protestante americano que era contrário ao segmento protestante liberal de fins do século XIX. Como especifica a pesquisadora Karen Armstrong, em sua obra Em nome de Deus – o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo:

A campanha fundamentalista assumiu um caráter de batalha. Seus líderes constantemente utilizavam imagens bélicas. “Creio que chegou o momento em que as forças evangelizadoras deste país, basicamente os institutos bíblicos, devem não só se levantar para defender a fé, mas compor uma frente unida e ofensiva”, escreveu E. A. Wollam no Christian Workers Magazine. Na mesma edição James M. Gray expressou sua concordância, proclamando a necessidade “de uma aliança ofensiva e defensiva na Igreja”. Num encontro da Northern Batist Convention, em 1920, Curtis Lee Laws definiu “fundamentalista” como alguém que está disposto a recuperar territórios perdidos para o Anticristo e “lutar pelos fundamentos da fé”. [1]


A batalha a que se refere a autora era no âmbito doutrinal e exegético. Os fundamentalistas, que estavam ligados a instituições como a editora Tes-timony Publishing Company, que editou a The fundamentals, pregavam a necessidade de afirmação dos dogmas do protestantismo tradicional, como a infalibilidade das escrituras. Nesse sentido, um dos alvos desse grupo de fundamentalistas era a abertura que outros protestantes davam para discursos científicos, como a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin.

Intolerância e ações violentas

O fato é que tal expressão, nascida nesse contexto de acalorados debates teológicos, acabou migrando, sobretudo via imprensa, para campos diretamente relacionados à intolerância e ações violentas praticadas por pessoas que, mais do que propriamente preocupadas com os fundamentos de determinada religião, seguiam preceitos sectários e ideológicos. Por isso, é preciso diferenciar a defesa de doutrinas e dogmas religiosos, que permanecem no campo do debate, de ações violentas.

Um caminho possível é conhecer as ideologias que se servem das doutrinas religiosas para tais fins. Foi o caso, por exemplo, dentro do catolicismo irlandês, do grupo terrorista IRA. Esse grupo paramilitar católico que pregava a agenda política de separação da Irlanda do Norte do Reino Unido valia-se de atos terroristas e outras ações violentas, que eram alimentados por um discurso político misturado com a doutrina católica.

Nos EUA, o caso da Ku Klux Klan também é emblemático, já que tal “clã” era uma seita que misturava ideologias raciais e eugenistas com protestantismo puritano. O caráter de seita era evidente na KKK, com o uso de túnicas, capuzes e cruzes flamejantes.

Outro caso é do wahhabismo islâmico, desenvolvido no século XVIII, que desembocaria em associações como a Irmandade Muçulmana, fonte intelectual de muitos terroristas islâmicos, como o Osama Bin Laden.

NOTAS

[1] ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 157.

A expressão “fundamentalismo” é fonte de muita discussão e controvérsia
A expressão “fundamentalismo” é fonte de muita discussão e controvérsia
Publicado por Cláudio Fernandes

Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial transcorreu entre os anos de 1914 e 1918 na Europa, Oriente Médio, norte da África e Ásia e foi considerada um conflito sem precedentes à época.

Um dos principais historiadores da Primeira Guerra Mundial é o letão Modris Eksteins. No seu livro “A Sagração da Primavera: A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna”, Eksteins diz:

Em agosto de 1914 a maioria dos alemães considerava em termos espirituais o conflito armado em que estava entrando. A guerra era sobretudo uma ideia, e não uma conspiração com o objetivo de aumentar o território alemão. Para aqueles que refletiam sobre a questão, tal aumento estava fadado a ser uma consequência da vitória, uma necessidade estratégica e um acessório da afirmação alemã, mas o território não constituía o motivo da guerra. Até setembro o governo e os militares não tinham objetivos bélicos concretos, apenas uma estratégia e uma visão, a da expansão alemã num sentido mais existencial que físico.” [1]

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Nesse trecho, Eksteins fornece um dado pouco explorado quando o assunto é a Primeira Guerra Mundial: a visão que os alemães tinham de si próprios, a visão sobre o “destino” a ser cumprido na Europa com o II Reich, comandado por Guilherme II. Esse dado é importante para se compreender a ambiência do nacionalismo alemão (ideologia que encabeçou o pangermanismo) e sua relação com a modernização tecnológica do II Reich, haja vista que a máquina de guerra do Império Alemão provocou um verdadeiro escândalo durante a “Grande Guerra”.

A “vontade de guerra” dos alemães transformou-se em ações após o incidente em Sarajevo, considerado tradicionalmente o estopim da guerra: o assassinato de Francisco Ferdinando, arquiduque e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, aliado da Alemanha. O arquiduque foi morto no dia 28 de junho de 1914 por um terrorista sérvio (Gravilo Princip) ligado ao grupo ultranacionalista “Mão Negra”. Para compreendermos bem o motivo de a morte de Francisco Ferdinando estar no epicentro do desenrolar da Primeira Guerra, é necessário saber que ele era a principal figura que negociava os interesses germânicos na região dos Bálcãs. Com o seu assassinato (pelas mãos de um eslavo), as tensões entre os dois principais projetos nacionalistas para a região acabaram aumentando vertiginosamente. Havia um projeto de orientação pan-eslavista para os Bálcãs que visava à criação da “Grande Sérvia” e era encabeçado pelo Império Russo. As disputas nacionalistas da região dos Bálcãs eram travadas entre pangermanistas e pan-eslavistas Essa ambiência desencadeou o conflito que logo assumiu proporções monstruosas.

Essas tensões remontavam à formação das alianças político-militares, conhecidas como Tríplice Aliança e Tríplice Entente. Essa última foi formada em 1904, recebendo o nome formal de Entente Cordiale, e abarcava França, Inglaterra e Rússia. O Império Russo, após a derrota para os japoneses na Guerra Russo-Nipônica (1904-1905), estreitou suas relações com a França, buscando apoio militar e econômico para precaver-se de eventuais conflitos em outras regiões de interesse, sobretudo nos Bálcãs (apesar de já haver acordos desse gênero entre os dois países desde 1883, como o chamado Entendimento Franco-Russo). A Inglaterra aliou-se à França porque temia o desenvolvimento bélico do Império Alemão e lutava para impor limites às pretensões de Guilherme II.

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Já à Tríplice Aliança associaram-se a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, que, desde a época de Bismarck, estabeleceram um pacto referente às ações de dominação da região dos Bálcãs almejadas pela dinastia dos Habsburgo. A essas duas nações juntou-se a Itália, que queria lançar represálias à França em virtude da invasão da Tunísia, no noroeste da África, em 1881. Essa região era cobiçada pelos italianos, o que aumentava ainda mais a tensão entre as duas alianças. Quando a guerra estourou, em 1914, os exércitos que se mobilizaram estavam associados principalmente a essas seis nações.

A iniciativa da guerra partiu da Alemanha, que executou o Plano von Schilieffen, isto é, um plano de guerra elaborado pelo general alemão que deu nome a esse plano. A estratégia consistia em atacar pelo Leste e defender-se pelo Oeste. A princípio, a guerra assumiu o caráter de “movimento”, isto é, o deslocamento de tropas e os ataques rápidos e fulminantes (isso abrangeu os dois primeiros anos da guerra). A partir de 1916, a guerra assumiu o caráter de “posição”, ou seja, buscava-se preservar as regiões ocupadas por meio do estabelecimento de posições estratégicas. Para tanto, a forma de combate adequada era a das trincheiras.

A Primeira Guerra Mundial foi reconhecida como a guerra das trincheiras em virtude das extensas batalhas que foram travadas desse modo. O horror vivido nas trincheiras trouxe uma conotação apocalíptica para aqueles que o viveram, como vários escritores que participaram da guerra, tais como Ernst Jünger, J. R.R. Tolkien e Erique Maria Remarque. Os soldados entrincheirados sofriam, impotentes, bombardeios e lançamento de gases venenosos, como a iperita (gás mostarda). Além disso, a umidade e o frio acabavam trazendo várias doenças, como o pé-de-trincheira, que provocava o apodrecimento dos pés, entre outros danos.

As principais batalhas da Primeira Guerra ocorreram em Ypres (na Bélgica) e em Verdun, Somme e Merne (na França), sem contar aquelas do fronte Ocidental, como a de Dardanelos, no Estreito de Istambul para o Mar Negro.

A guerra teve o seu fim em 1918, com a derrota da Alemanha, a ruína do Império Russo e a ascensão dos Estados Unidos como potência econômica e militar. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha vultosas medidas de reparação pelos danos causados pela guerra.

NOTAS

[1] EKSTEINS, Modris. A Sagração da Primavera. Rio de Janeiro: Rocco. p. 123.

Soldados ingleses entrincheirados durante a Primeira Guerra Mundial

Soldados ingleses entrincheirados durante a Primeira Guerra Mundial

Publicado por Cláudio Fernandes
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