Nem o processo de transformação acelerado foi capaz de tirar o brilho daquela que melhor traduz o espírito sociocultural da capital. Decantada em prosa e verso, a Rua da Bahia – que nasceu para ligar o centro comercial (Praça da Estação) ao administrativo (Praça da Liberdade) da primeira cidade brasileira planejada do período republicano – continua servindo de inspiração para variadas criações, desde que o cronista e compositor Rômulo Paes decretou: “A minha vida é esta, subir Bahia, descer Floresta”.
“As pessoas costumam dizer que não há nada para fazer em BH, mas um passeio pela Rua da Bahia poderá levá-las a um mundo de revelações”, afirma a turismóloga Bernadete Bittencourt Rodrigues, responsável pelo projeto Corredor cultural Rua da Bahia: Educação patrimonial e memória urbana. Já na segunda edição, o programa de visitas guiadas à região agora atende o público em geral, além do já regular, formado por estudantes do ensino fundamental.
Durante duas horas, até 40 pessoas podem desfrutar do passeio (a pé), com direito a histórias divertidas e exemplares dos diversos estilos arquitetônicos que retratam a evolução urbanística da capital. Tem também as paradas obrigatórias em espaços de uso cultural como Teatro da Cidade, Teatro Icbeu, Arquivo Público Mineiro e Museu Mineiro, entre outros, localizados na rua e entorno. “A garotada fica deslumbrada ao saber de detalhes como o primeiro apelido da cidade, “Poeirópolis”, devido à poeira provocada pelas obras de construção”, conta o guia Keller Bim.
O passeio começa pelo marco inicial da capital, Praça da Estação, de onde se avista inclusive parte da Serra do Curral, que teria dado origem ao batismo do antigo Curral del-Rey, inaugurado sob o nome de Cidade de Minas, em dezembro de 1897. Somente em 1901, a cidade passou a se chamar Belo Horizonte. A partir da praça, o passeio segue Rua Bahia acima, até a sede do poder, Praça da Liberdade, que abriga o palácio de governo.
Dependendo do interesse, o trajeto pode se estender até os limites da Avenida do Contorno – a partir dela, a famosa rua muda de nome e passa a se chamar Carangola. O vínculo da população com a Rua da Bahia vai além da riqueza arquitetônica, na opinião da historiadora Denísia Martins Borba: “Vem principalmente da eferverscência cultural da via, desde os anos 1920”. Ela lembra que Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Emílio Moura, em 1924, receberam no Grande Hotel grupo de intelectuais paulistas em visita à cidade, liderado pelos modernistas Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.
A Rua da Bahia abriga importantes construções e espaços culturais
Do neoclássico ao contemporâneo, passando pelo modernismo de Oscar Niemeyer, a Rua da Bahia abriga verdadeira coletânea de estilos e épocas arquitetônicas. “Todo o patrimônio edificado da cidade passa por ela, com os devidos cortes”, afirma o arquiteto Daniel Medeiros, destacando obras emblemáticas como o Viaduto de Santa Teresa, responsável por mudança no urbanismo da capital planejada. “Edifícios como o Sulacap-Sudameris, que tiveram influências da escola modernista (graças ao uso de pilotis e o afastamento da rua), também colaboraram para as transformações”, ele diz. “Outro marco, já na década de 1950, foi o Edifício Malleta, que implantou na cidade a verticalização de mercado, ao propor o aproveitamento máximo do terreno”, recorda.
O neoclássico das secretarias de estado associado às linhas curvas de Niemeyer e à contemporaneidade da Rainha da Sucata, na Praça da Liberdade, formam, para o arquiteto, um dos conjuntos mais valorosos da arquitetura belo-horizontina, onde o Centro de Cultura, de estilo neogótico manuelino, é o que mais se aproxima do ecletismo. Remanescente de período em que a via tinha importância ainda maior, o jornalista e cronista José Bento Teixeira de Salles, autor de Rua da Bahia (da série BH a cidade de cada um) não acredita no projeto de revitalização da rua: “Voltar ao que era, jamais!. BH cresceu, a própria fisionomia da Rua da Bahia é outra. A tentativa de reerguê-la é elogiosa, mas acho difícil”. Para ele, a rua tem “significação de movimento da vida da cidade. Não apenas o boêmio, mas literário e cultural”.
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